Ele era verde escuro, pegajoso, imenso, grotesco;
Os olhos, saltados e
assustados me fitavam:
- Você não vai conseguir.
Estava estático.
Sobre a pele, minúsculas saliências se projetavam,
texturizando ainda mais a coisa. Uma
gosma purulenta recobria todo o corpo daquele asqueroso ser.
- Você não vai conseguir.
Os olhos, muito brilhantes, me desafiavam.
Agarrei-o com um movimento brusco, e ele emitiu um coacho
surpreso e sufocado, mas apertei ainda mais meus dedos em volta daquele corpo
viscoso e frio e ele rangeu. Com um só gesto, enfiei a cabeça do animal na boca
e decepei-a com os dentes. Senti os ossos do pescoço se partirem, as fibras da
carne rança se enrolando na língua, e o sangue quente e metálico correndo
garganta adentro. O corpo do bicho estrebuchava, tendo convulsões.
Enquanto eu olhava fascinada o corpo decapitado, triturei
seu cérebro gorduroso entrei os molares, sentindo os globos oculares (que já
não mais me fitavam) explodirem.
- Talvez.
Olhei para o resto dele.
Ainda tremendo, enfiei-o na boca.
As patinhas tinham dedos que terminavam em potentes ventosas,
que se prendiam nas bochechas e na língua, arranhavam a garganta e, de algum
jeito, ainda resistiam e tinham consciência de ser. Os dedinhos pareciam possuir garras, que me
arranhavam a traqueia e começavam a me sufocar.
Senti que o ar não estava chegando aos meus pulmões, e da
mesma forma eu não conseguiria gritar. As garras do monstro já estavam me
rasgando o pescoço, eu podia sentir um líquido quente em minha boca, mas não
conseguia engoli-lo, uma vez que aquele bicho repugnante mantinha-se firmemente preso
do lado de dentro da minha jugular.
De repente, eu não aguentei mais. De uma vez só, vomitei
tudo o que havia de podre dentro de mim, que fermentava ali inerte na alma, que
me sugava as forças e predava-me o ânimo. De uma feita, golfei todas as
desilusões, as lágrimas, toda a dor e desamparo, todos os traumas e pesadelos,
todo o mal que me habitava. Regurgitei toda a acidez do meu mundo.
O bicho caiu a minha frente; morto, enfim. Estava
irreconhecível, uma massa de ossos e vísceras imóvel, na qual apenas podia-se
reconhecer uma única ventosa, retorcida, pendendo de um dedo inerte.
Eu me sentia vazia, sozinha, sem forças. Tinha medo de
começar a chorar e não parar nunca mais.
